Se, de um lado, vivemos sob a suposição de que tudo na vida pode ser uma escolha (além das escolhas de consumo e opções políticas, podemos escolher não apenas a aparência, mas nossa orientação sexual, se teremos filhos ou não, qual tipo de tratamento médico queremos), de outro, a própria escolha parece provocar ansiedade e ser profundamente insatisfatória. Essa é a razão pela qual muitas vezs ouvimos na mídia popular que nossa sociedade, na verdade, sofre de uma tirania da escolha e da abundância da liberdade. (pág. 15)
(...)
Por que há tal descontentamento em relação à escolha? Schwartz acredita que o problema seja escolhas demais. Citando pesquisas psicológicas que mostram que pessoas menos expostas a menos escolhas estão mais satisfeitas, ele propões várias formas de autolimitação, que o consumidor deve impor a si mesmo para se sentir mais feliz em relação à sua escolha. Assim, alguém deve "escolher quando escolher"; ser aquele que escolhe e não apenas apanha; estar contente com o "suficientemente bom"; fazer decisões irreversíveis; praticar uma atitude voltada para a gratidão; se arrepender menos; antecipar a adaptação; controlar as expectativas; abolir a comparação social e, especialmente, "aprender a amar as adversidades". (pág. 19)
Sobre a felicidade: ansiedade e consumo na era do hipercapitalismo /Renata Salecl; tradução Marcelo Rezende, - São Paulo: Alameda, 2005.
terça-feira, 5 de abril de 2011
sexta-feira, 25 de março de 2011
Manter as portas abertas (II)
Segue um pequeno trecho que retirei do livro "Previsivelmente Irracional" (págs. 120-122), de Dan Ariely. Este livro também foi inspirador do pensamento que ocupará os próximos posts. Desta maneira, acho conveniente ocupar este espaço para registrar o pensamento de Ariely.
(…) Em 1914, o filósofo Erich Fromm escreveu um livro chamado O medo da liberdade. Em uma democracia moderna, disse ele, não somos acossados pela falta de oportunidades, mas por uma estonteante abundância delas. Em nossa sociedade moderna, é isso mesmo o que acontece. São contínuos os lembretes de que podemos fazer qualquer coisa e ser qualquer coisa que quisermos. O problemas está em viver à altura desse sonho. Precisamos evoluir de todos os modos possíveis; temos de experimentar todos os aspectos da vida; ter a certeza de que, das mil coisas a ver ates de morrer, não paramos na número 999. Mas, então, surge um problema – não estamos nos espalhando demais? A tentação que Fromm descrevia, creio, é o que vimos ao observar nossos participantes correndo de uma porta para outra.
(…) Em 1914, o filósofo Erich Fromm escreveu um livro chamado O medo da liberdade. Em uma democracia moderna, disse ele, não somos acossados pela falta de oportunidades, mas por uma estonteante abundância delas. Em nossa sociedade moderna, é isso mesmo o que acontece. São contínuos os lembretes de que podemos fazer qualquer coisa e ser qualquer coisa que quisermos. O problemas está em viver à altura desse sonho. Precisamos evoluir de todos os modos possíveis; temos de experimentar todos os aspectos da vida; ter a certeza de que, das mil coisas a ver ates de morrer, não paramos na número 999. Mas, então, surge um problema – não estamos nos espalhando demais? A tentação que Fromm descrevia, creio, é o que vimos ao observar nossos participantes correndo de uma porta para outra.
Correr de porta em porta é uma atividade humana já bem estranha. Ainda mais estranha, porém, é nossa compulsão em correr atrás de portas de pouco valor – oportunidades quase mortas, ou que já têm pouco interesse para nós
(…)
Precisamos é começar a fechar algumas de nossas portas. As portas pequenas, naturalmente, são bem fáceis de fechar. É fácil riscar nomes de nossas listas de cartões de Natal, por exemplo, ou tirar o tae kwon do do rol de atividades de nossa filha
Mas as portas maiores (ou aqueles que parecem maiores) são mais difíceis de fechar. As portas que podem levar a uma nova profissão, ou a um emprego melhor, podem ser difíceis de ser fechadas. As portas amarradas a nossos sonhos também são difíceis. E também os relacionamentos com certas pessoas – mesmo que não pareçam levar a lugar algum.
Temos uma compulsão irracional de manter portas abertas. Fomos programados assim. Mas isso não quer dizer que não devamos tentar fechá-las. (…)
(…)
Precisamos sair de comitês que sejam perda de tempo e para de enviar cartões de Natal para gente que já mudou de vida e de amigos. Precisamos definir se temos tempo mesmo para assistir ao basquete, jogar golfe e squash, e manter nossa família unida; talvez devêssemos deixar alguns desses esportes de lado. Devemos abandoná-los porque sugam energia e empenho, afastando-nos das portas que deviam ficar abertas – e porque nos enlouquecem.
Previsivelmente irracional: as forças ocultas que formam as nossas decisões / Dan Ariely ; tradução Jussara Simões – Rio de Janeiro : Elsevier, 2008.
sexta-feira, 18 de março de 2011
O Carrasco do Amor (I)
Segue um pequeno trecho que retirei do livro "O Carrasco do Amor" (págs. 16-19), de Irvin Yalom. Ele serve como caminho para um pensamento que posteriormente será transcrito em bits.
Todo terapeuta sabe que o primeiro passo crucial na terapia é a aceitação por parte do paciente da responsabilidade pela sua condição de vida. Na medida em que a pessoa acredita que seus problemas são causados por alguma força ou entidade fora dela, não há avanço na terapia. Afinal de contas, se os problemas estão fora, por que a pessoa deveria se modificar? É o mundo externo (amigos, trabalho, cônjuge) que deveria ser modificado – ou trocado.
(...)
Embora a aceitação da responsabilidade conduza o paciente ao limiar da mudança, ela não é sinônimo de mudança. (...) A liberdade não apenas requer que aceitemos a responsabilidade por nossas escolhas de vida, como também pressupõe que a mudança demanda um ato de vontade.
(...)
É pela vontade, o principal motivo da ação, que nossa liberdade se desenvolve. Eu vejo a vontade tendo dois estágios: uma pessoa começa por meio do desejo e depois realiza, por meio da decisão.
Algumas pessoas têm desejos bloqueados, não sabem o que sentem nem o que querem. Sem opiniões, sem inclinações, elas se tornam parasitas dos desejos dos outros.
(...)
Outros pacientes não conseguem decidir. Embora saibam exatamente o que querem e o que precisam fazer, eles não conseguem agir, e, ao contrário, ficam no mesmo lugar, atormentados, diante do portal da decisão.
(...)
Decisões são difíceis por muitas razões, e algumas atingem o próprio cerne da existência. John Gardner, em seu romance Grendel, fala de um homem sábio que resume suas meditações sobre os mistérios da vida em dois postulados simples, mas terríveis: “as coisas desaparecem gradualmente: as alternativas se excluem.” (...) “as alternativas se excluem”, é uma chave importante para compreendermos por que a decisão é difícil. A decisão invariavelmente envolve renúncia: para cada sim deve haver um não, cada decisão elimina, ou mata, outras opções (a raiz da palavra decidir significa “matar, como em homicídio ou suicídio).
O Carrasco do Amor / Irvin D. Yalom; tradução Maria Adriana Veríssimo Veronese, – Rio de Janeiro: Ediouro, 2007
P.S.: Aos que sentiram incomodados pela presença do termo "paciente" neste texto, faço uso das palavras do autor: "A condição de ser paciente é onipresente; a aceitação do rótulo é amplamente arbitrária e frequentemente depende mais de fatores culturais, educacionais e econômicos do que da severidade da patologia".
P.S.: Aos que sentiram incomodados pela presença do termo "paciente" neste texto, faço uso das palavras do autor: "A condição de ser paciente é onipresente; a aceitação do rótulo é amplamente arbitrária e frequentemente depende mais de fatores culturais, educacionais e econômicos do que da severidade da patologia".
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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
"Eu te gosto...muito"
Estava quase dormindo, quando pensei no quanto eu gosto de ouvir estas quatro palavras. Para falar a verdade, nesta mesma ordem e acompanhadas destas reticências.
O quão difícil é dizer "eu te amo"? Pois bem, não deveria ser.. pois amar é fundamental! É ponto de partida. Assim como não se começa a construir uma casa pelo telhado, mas pela sua fundação, teríamos de construir nosso viver fundamentado pelo amor.
E o amor é simples, pois também é essência de Deus. Que seria amar, senão respeitar o próximo e querer seu bem tanto como a si próprio?
"Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros."
E o amor é simples, pois também é essência de Deus. Que seria amar, senão respeitar o próximo e querer seu bem tanto como a si próprio?
Simples!
"Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros."
João 13, 34
Mas, neste post, me atento mesmo ao "eu te gosto... muito". Pois gostar transcende o amar. Gostar significa encontrar no outro certa afinidade, para então cultivar laços que os aproximem.
Gostar significa também reconhecer que uma relação próxima contém espinhos, mas que algo maior faz o querer estar próximo, seja como for.
Estas linhas estão sendo escritas por mãos preocupadas. De que as pessoas não tem mais tempo de reconhecerem, umas nas outras afinidades das quais gostam, sementes que possam cultivar uma amizade. Afinal, estas são menos aparentes que os espinhos.
"Com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor."
Efésios 4, 2
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Onde você quer chegar?
O Gato apenas sorriu quando viu Alice. Parecia de boa índole, ela pensou, mas não deixava de ter garras muito longas e um número respeitável de dentes, por isso ela sentiu que devia ser tratado com respeito.
"Gatinho de Cheshire" começou um pouco tímida, pois não sabia se ele gostaria do nome, mas ele abriu mais o sorriso. "Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para sair daqui?"
"Isso depende bastante de onde você quer chegar", disse o Gato.
"O lugar não me importa muito...", disse Alice.
"Então não importa que caminho você vai tomar", disse o Gato.
"... desde que eu chegue a algum lugar", acrescentou Alice em forma de explicação.
"Oh, você vai certamente chegar a algum lugar", disse o Gato, "se caminhar bastante".
Lewis Caroll em Alice no "País das Maravilhas".
P.S.: Nunca li o livro todo. Tive contato com este trecho da obra na introdução da apostila de Gerenciamento de Projetos (método Zopp,) da Fundap. "Inusitado".
"Gatinho de Cheshire" começou um pouco tímida, pois não sabia se ele gostaria do nome, mas ele abriu mais o sorriso. "Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para sair daqui?"
"Isso depende bastante de onde você quer chegar", disse o Gato.
"O lugar não me importa muito...", disse Alice.
"Então não importa que caminho você vai tomar", disse o Gato.
"... desde que eu chegue a algum lugar", acrescentou Alice em forma de explicação.
"Oh, você vai certamente chegar a algum lugar", disse o Gato, "se caminhar bastante".
Lewis Caroll em Alice no "País das Maravilhas".
P.S.: Nunca li o livro todo. Tive contato com este trecho da obra na introdução da apostila de Gerenciamento de Projetos (método Zopp,) da Fundap. "Inusitado".
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Limites da conversação
Meu poema preferido é o que empresta o nome ao título deste post.
"Há certas coisas que não haveria mesmo ocasião de as colocarmos sensatamente numa conversa - e que só num poema estão no seu lugar. Deve ser por este motivo que alguns de nós começaram, um dia, a fazer versos. Um modo muito curioso de falar sozinho, como se vê, mas o único modo de certas coisas caírem no ouvido certo."
Paternidade reconhecida por Mário Quintana.
"Há certas coisas que não haveria mesmo ocasião de as colocarmos sensatamente numa conversa - e que só num poema estão no seu lugar. Deve ser por este motivo que alguns de nós começaram, um dia, a fazer versos. Um modo muito curioso de falar sozinho, como se vê, mas o único modo de certas coisas caírem no ouvido certo."
Paternidade reconhecida por Mário Quintana.
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